Passei por sua rua hoje, sem querer, ao menos acho que foi sem querer, aquela mesma rua que cruzamos de mãos dadas rindo e falando merda, bêbados, em madrugadas passadas. Olhei seu prédio, por um momento, te vi descendo as escadas pela porta de vidro fosco para abrir o portão para mim, como a primeira vez que fui lá, nem lembrava direito seu rosto, era a segunda vez que eu te via, a primeira, de tão bêbado que estava, pra variar, eu nem me lembro.
Passei por lá e, por alguns minutos, me vi pensando no fim de tudo aquilo que nunca foi alguma coisa, inventei uma desculpa para mim mesmo mas, no fundo, não faço idéia do que aconteceu.
Sinto que eu podia ter me apaixonado por você, talvez. Sei lá, mas poderia ter acontecido, a gente se dava bem pra caralho, você falava demais, fato, mas eu também falo feito um desgraçado, vai ver, estaríamos juntos até hoje, já pensou? Sei que não, eu também só pensei nisso hoje.
E aquela rua, em meio a um bairro tão homogêneo, quadrado, pasteurizado, tem umas construções tão legais, acho que comentei isso com você, se não, pare um pouco pra reparar. Sempre gostei disso, lembro do efeito bacana que a chuva, na primeira vez que passei por essa rua, causava nas vidraças de um sobrado curiosamente vitoriano perdido por lá. Me lembro daquele cachorro vagabundo que vivia ali, na mesma esquina. Cadê ele, hein?
Mas é fácil idealizar, não é? Pensar no que poderia ter sido, no que não foi, não será. Porra, já aconteceu, já foi, com um monte de gente, nunca deu certo, porque com você seria? Maldita mania essa nossa de correr atrás de felicidade, de conforto, de paz!
As pessoas tanto falam por aí em lutar, tanto falam em dar a volta por cima, em enfrentar os próprios demônios, em erguer a cabeça e vislumbrar o horizonte belo, que me aguarda. Horizonte, belo, me aguarda. A vontade que eu tenho, muitas vezes, é de mandar tomar no cu mesmo.
Todos gostam de se iludir com os comerciais, com as pregações, com belas canções de amor, todos gostam de pensar que, no fundo, vivem em uma novela, e não em um noticiário. Por definição, são os dois mentirosos, a diferença é que, no noticiário, ao menos as mortes são reais.
E qual o problema em assumirmos que não há para onde correr? Muito já se disse por aí, muito já foi testado, muitos ainda querem testar muitas coisas mas, porra! Somos uma desgraça de um animal que por um capricho do destino, da natureza, do satanás que for, além de cagar, trepar, matar e morrer, inventamos que também somos capazes de amar.
Somos a desgraça de um animal que caga, trepa, mata, morre e ama.
E hoje, bem, hoje eu passei em frente ao seu prédio. Quase senti um fio de esperança.


3 comentários:
Acho que no mundo crer nos conceitos vendidos ou empurrados garganta a baixo de nossas vidas, faz com que as coisas pareçam menos tristonhas. Por menor que seja a ilusão, por mais intensa que seja uma paixão... os seres humanos nunca poderiam viver na calmaria de ver apenas os dias passar, pois mesmo que eles passem, para nós isso é muito pouco em função do nada de tempos que temos. por isso nos iludimos sobre terminada coisa, terminado assunto, determinado amor.
bjao
me lembrou uma música do vanguart, não sei se você conhece...
'nessa cidade tem uma rua, que eu não ouso mais passar...'
admiro quem volta a passar pelas lembranças, destemido.
Talvez a questão real dos seres humanos estejam nas expectativas que criamos. Precisamos aceitar que a existência da imprevisibilidade é único fator concreto em nossas vidas.
Bjos!
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