Tenho um certo fascínio por bêbados. Aguns praticamente moram aqui na esquina de casa, embora não reste dúvidas que eles tem casa, eles vivem é aqui na esquina.
É engraçado, eu saio para trabalhar, eles já estão compartilhando uma garrafa da mais vagabunda pinga, bêbados, provavelmente para curar a ressaca do dia anterior, e passam o dia. Não sei da família deles, nem de onde tiram dinheiro, mas eles, de uma maneira ou de outra, são simpáticos.
Sempre os cumprimento, e recebo um “oi cabelo” ou “iaê irmãozinho” de volta, às vezes um deles me pede dinheiro, pra tomar uma pinga ali, caço minhas moedas e dou, sem peso na consciência, sei que é a unica forma de fazê-los felizes.
Acho a vida deles uma das coisas mais curiosas desse mundo. Vivem ali, definitivamente bêbados, constantemente bêbados, alcoólatras, sem se importar com isso. Vai ver o que me fascina neles é a maneira como levam a vida, embrigados. Eles não se importam se o aquecimento global está cada vez pior, ou se os coreanos estão a ponto de se explodir, eles apenas bebem, e conversam o dia inteiro na esquina, felizes.
E todos são homens feitos, sabe Deus o que já passaram, sabe Deus o que os levou a ficar ali, se embriagando, como quem cumpre horário, como se fosse obrigação. Às vezes um deles, menos embriagado, aparace com um violão, passam o dia cantando músicas antigas, mas cantando com a alma, lembrando sabe Deus o que, as vezes alguns se abraçam, quase sempre enxugam umas lágrimas.
Penso que, no fundo, eles são os mais sábios, penso que já cansaram de sofrer, de se doar por um mundo que não oferece nada em troca. Preferem então se enganar, se afundar em um mundo distorcido, mas que os faz rir e chorar de qualquer coisa, que trava suas pernas mas libera seus pensamentos, seus sentimentos mais ocultos, ao simples toque de uns acordes mal feitos em um violão velho.
Penso que a felicidade deles está ali, quando não conseguem mais andar nesse mundo, mas sim voar em seu interior.

