27 de novembro de 2010

Sobriedade

Tenho um certo fascínio por bêbados. Aguns praticamente moram aqui na esquina de casa, embora não reste dúvidas que eles tem casa, eles vivem é aqui na esquina.

É engraçado, eu saio para trabalhar, eles já estão compartilhando uma garrafa da mais vagabunda pinga, bêbados, provavelmente para curar a ressaca do dia anterior, e passam o dia. Não sei da família deles, nem de onde tiram dinheiro, mas eles, de uma maneira ou de outra, são simpáticos.

Sempre os cumprimento, e recebo um “oi cabelo” ou “iaê irmãozinho” de volta, às vezes um deles me pede dinheiro, pra tomar uma pinga ali, caço minhas moedas e dou, sem peso na consciência, sei que é a unica forma de fazê-los felizes.

Acho a vida deles uma das coisas mais curiosas desse mundo. Vivem ali, definitivamente bêbados, constantemente bêbados, alcoólatras, sem se importar com isso. Vai ver o que me fascina neles é a maneira como levam a vida, embrigados. Eles não se importam se o aquecimento global está cada vez pior, ou se os coreanos estão a ponto de se explodir, eles apenas bebem, e conversam o dia inteiro na esquina, felizes.

E todos são homens feitos, sabe Deus o que já passaram, sabe Deus o que os levou a ficar ali, se embriagando, como quem cumpre horário, como se fosse obrigação. Às vezes um deles, menos embriagado, aparace com um violão, passam o dia cantando músicas antigas, mas cantando com a alma, lembrando sabe Deus o que, as vezes alguns se abraçam, quase sempre enxugam umas lágrimas.

Penso que, no fundo, eles são os mais sábios, penso que já cansaram de sofrer, de se doar por um mundo que não oferece nada em troca. Preferem então se enganar, se afundar em um mundo distorcido, mas que os faz rir e chorar de qualquer coisa, que trava suas pernas mas libera seus pensamentos, seus sentimentos mais ocultos, ao simples toque de uns acordes mal feitos em um violão velho.

Penso que a felicidade deles está ali, quando não conseguem mais andar nesse mundo, mas sim voar em seu interior.

23 de novembro de 2010

Amargor

“Foi meio horrível o jeito que te deixei, né?”

Assim, do nada, eles se encontraram na rua, conversaram um pouco sobre suas vidas e ela soltou essa frase.

Quer dizer, não foi tão do nada, foi quando os dois riram, como riam naquela época, e então o silêncio apareceu e reinou por alguns segundos, assim, bem clichê.

Ele desviou o olhar, e resmungou qualquer coisa, olhando para baixo, torcendo para aquele chão abrir, não abriu.

“Sei que foi, me desculpe”

Ela queria continuar no assunto, ela sempre foi assim, com essa mania estranha de levar um assunto até o fim, mesmo que ele resultasse em briga, e ele sabia que, se quisesse ir embora logo para nunca mais vê-la (como ele pensou que seria quando se separaram) teria de, primeiro, matar aquela conversa.

“Nós não éramos mais os mesmos. A propósito, nunca fomos algo”

“Mas eu sei que foi errado o que fiz”

“Eu não. Também não te procurei mais, só sabia te acusar”

“Com razão”

“Não, eu não tinha razão, no fundo sabia que você gostava de mim, só falava que você não tinha sentimentos para ver se você me dizia”

“Mas eu falava, poxa!”

Os dois ficaram um tempo em silêncio, já estavam sentados em um banco em uma praça, e ela pensava em comprar um algodão doce, que sempre foi o seu preferido.

“Era uma merda, de qualquer jeito”

Ele disse, tentando se enganar, ele sempre adorou ficar com ela.

“Sei que não. Sabe, eu sempre adorei ficar contigo”

“É, eu também. Mas a nossa situação era uma merda. Nunca fomos nada, poxa! Aliás, você não me deve satisfações pelo jeito que me deixou, não éramos namorados, nem nada, sei lá que porra era aquela”

Agora ele estava certo.

“É, aquilo era uma merda”

“Porque nunca namoramos?”

“Acha que iria durar?”

“Eu amava você”

“Não ama mais?”

Como ela podia ser tão cruel? Será que iria adiantar alguma coisa? A aliança de noivado dela o cegava agora, e ela lhe pergunta isso. Some, fica noiva, reaparece, e pergunta se ele ainda a ama.

Ele levantou, foi até o cara que vendia algodão doce. Amargo, pagou e mandou que ele levasse um para ela, que apenas o observou indo embora, sabendo que nunca mais o veria.

17 de novembro de 2010

Ingratidão

Só escuto músicas tristes
De discos há muito esquecidos

Só ouço os lamentos amargurados
Daqueles que estão perdidos

Enquanto eles morrem
Você não vive
Não pensa:
-Qual a diferença?

31 de outubro de 2010

Perspectiva

A medida que tudo a sua volta balançava, ela balançava também, e só ela sabia o quanto.

Quando as coisas lá fora paravam, ela não parava, continuava funcionando, lentamente, a todo vapor. E quando, subitamente, o mundo começava a se mover para ela,  o seu corpo se inclinava para frente, também de súbito, e a tomava com um pequeno susto.

E tudo balançava, e ela não conseguia ordenar as idéias, e pessoas entravam e saiam, e passavam por ela, e ficavam mais próximas ou mais distantes, e continuvam por ali ou logo iam embora, e ela pensava, serena, desesperada, triste, feliz, perdida. Nunca encontrada.

Pensava no que tinha feito, no que estava prestes a fazer e no que não faria. Não sabia se estava certa ou errada, não sabia nada de seu futuro, só sabia, na verdade, tinha uma idéia vaga, de onde tinha de descer. Mas não precisava. Não precisava descer, muito menos saber coisa alguma. Precisava viver, não por ela, viver por alguém, e esse alguém sim, viveria por ela.

E tudo balançava, chacoalhava, e ela ia junto, mais que tudo, mais que todos, só ela sabia o quanto. E tudo parou, ela não, ela desceu daquele ônibus.

E o mundo não se moveu mais para ela. Mas ela se moveu para o mundo.