Tenho um certo fascínio por bêbados. Aguns praticamente moram aqui na esquina de casa, embora não reste dúvidas que eles tem casa, eles vivem é aqui na esquina.
É engraçado, eu saio para trabalhar, eles já estão compartilhando uma garrafa da mais vagabunda pinga, bêbados, provavelmente para curar a ressaca do dia anterior, e passam o dia. Não sei da família deles, nem de onde tiram dinheiro, mas eles, de uma maneira ou de outra, são simpáticos.
Sempre os cumprimento, e recebo um “oi cabelo” ou “iaê irmãozinho” de volta, às vezes um deles me pede dinheiro, pra tomar uma pinga ali, caço minhas moedas e dou, sem peso na consciência, sei que é a unica forma de fazê-los felizes.
Acho a vida deles uma das coisas mais curiosas desse mundo. Vivem ali, definitivamente bêbados, constantemente bêbados, alcoólatras, sem se importar com isso. Vai ver o que me fascina neles é a maneira como levam a vida, embrigados. Eles não se importam se o aquecimento global está cada vez pior, ou se os coreanos estão a ponto de se explodir, eles apenas bebem, e conversam o dia inteiro na esquina, felizes.
E todos são homens feitos, sabe Deus o que já passaram, sabe Deus o que os levou a ficar ali, se embriagando, como quem cumpre horário, como se fosse obrigação. Às vezes um deles, menos embriagado, aparace com um violão, passam o dia cantando músicas antigas, mas cantando com a alma, lembrando sabe Deus o que, as vezes alguns se abraçam, quase sempre enxugam umas lágrimas.
Penso que, no fundo, eles são os mais sábios, penso que já cansaram de sofrer, de se doar por um mundo que não oferece nada em troca. Preferem então se enganar, se afundar em um mundo distorcido, mas que os faz rir e chorar de qualquer coisa, que trava suas pernas mas libera seus pensamentos, seus sentimentos mais ocultos, ao simples toque de uns acordes mal feitos em um violão velho.
Penso que a felicidade deles está ali, quando não conseguem mais andar nesse mundo, mas sim voar em seu interior.


13 comentários:
Que poético, amor...
Sei lá, apesar de ter dó do fígado deles e achar muito triste essa situação, acho que no fundo você tem razão.
A gente fica aqui, só se martirizando pelas coisas que não podemos fazer, nos preocupando com o mundo e com as mãos atadas.
Às vezes eu tenho medo da vida...
beijos!
te amo muuuito!
Primeiro que você é um pilantra. Como volta e não dá sinal de vida, seu patife?
u__u
HAI-AI..
mas voltando ao texto...
Eu nao sei.. bebados são.. assustadores. Parecem fugir de algo, eu não sei. Sou suspeita visto que acabo de terminar um relacionamento EXATAMENTE por causa de bebida. rs
Não, é claro que nao era como os bebados da tua esquina, mas é bebida e eles acabam ficando sozinhos ):
beijo Miné
Henrique...
que palavras interessantes... quem consegue ver poesia nessa "ausência" que a bebida causa é certamente alguém com um dom especial !!!
o texto é lindo.
me fez sair daqui com vontade de voltar !
parabéns pela inteligência e pela delicadeza com as palavras....
parabéns !
beijo
Eu nunca tinha olhado as coisas por esse ângulo Henrique e isso me fascinou. Assim, minha intimidade com bêbados não é grande porque geralmente tenho medo de pessoas que olham fixadamente para você com panças de fora e bafo de cachaça. Mas, me lembrou do Pé... você uma vez falou sobre ele no Palhaçadas e eu nunca mais o esqueci.
Enfim, adorei.
Beijos
Sabe, eu nunca tinha pensando nos bêbados dessa forma...
Mas uma coisa que já havia reparado neles é que sempre falam o que querem/sentem sem pensar nas consequencias, acho então que para algumas pessoas ficar nesse estado é uma maneira de conseguir ser verdadeiro hm*
E faço das palavras da Solange minhas palavras: quem consegue ver poesia nessa "ausência" que a bebida causa é certamente alguém com um dom especial !!!
Beijos Henrique
Algumas pessoas se embriagam para assim poderem dizer aquilo que realmente pensam, outros si embriagam para não ver a realidade a sua vida, outros si embriagam para simplesmente curar uma dor, enfim eles si embriagam, de vinho, de pinga, de ilusões, de faz-de-conta é um modo de vida, talvez melhor que o meu, que o seu, não importa, é o modo deles de viver nesse mundo cão que os devora a cada dia que passa. ameei o post.
Já pensei nos bêbados de uma forma boêmia. Até conhecer de perto a história de um que parecia bem feliz, viajando para dentro de si, mas que na verdade sofria, tentando para com o vício ;x
Tem um bêbado aqui em minha cidade que sempre chamo ele de feliz, mas fiquei mais feliz quando ele se recuperou...
... infelizmente só por alguns meses.
beijos
Nossa vc disse tudo, eu concordo com isso... mesmo as vezes ficando muito preocupada com alguns moradores de rua q bebem, é q faço trabalho social com eles, cada um tem uma historia e um motivo pra isso... é complicado fazer eles sairem do universo deles...
Conheci uma das minhas grandes amigas bêbadas, mas isso não vem ao caso.
Muitas vezes tentamos consertar um mundo que não está nem aí pra gente, que simplesmente nos esculacha e ficamos preocupados e criando rugas por isso, mas há pessoas que cansadas de tudo isso criam algumas saídas.
Não acho a bebida a melhor saída, mas é certeza que ela trás um alívio imediato!
beijooooos :*
Gostei do olhar não-moralista que você deu pra essa questão, pois de fato há algo de curioso no mundo dos bêbados que o são 24 horas por dia; algo que não pode ser compreendido sob o prisma do cidadão de bem, geração saúde, que trabalha, lê jornal e comete seus trambiquezinhos travestidos no discurso do "jeitinho brasileiro", mas sempre levantam o braço a falar mal desrespeitosamente daqueles que não acreditam nesse tipo de vida, daqueles que não acreditam nesse tipo de morte...
Tem razão, alguns bebem mesmo pra esquecer ou se desviar desse nosso mundo. O interior deles, a imaginação presente naquelas cabeças devem ser bem mais divertidas do que presenciar lucidamente esse nosso mundo de amargura. Muito bom o texto *-*
De certa forma compartilho suas ideias, são sim interessantes.
Charlie B.
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