21 de maio de 2013

O Triste Dia Em que A Humanidade Se Salvou

Existe um velho conhecido meu, desses que perambulam pelas ruas atrás de alguma maneira de arranjar grana, cachaça, cigarros, crack. Pois bem, ele vivia em um boteco que ficava na esquina da casa onde eu morava antigamente, algumas figuras como ele também viviam por lá, sempre me pedindo cigarros, umas moedas pra tomar uma pinga, me vendendo alguma coisa da qual eu não preciso.

Dia desses, passei na frente do tal boteco, atrás de cigarros importados, então, me lembrei, o boteco simplesmente fechou. Suas doses homéricas de um real, sua mesa torta de sinuca e o seu dono com cara de deprimido não estão mais lá, as portas estão fechadas e a pintura de alguma marca de cerveja vagabunda está desbotada.

Mas esse meu conhecido, cujo nome eu ainda não sabia, estava lá.

Quer um cigarro aí, Cabelo? Ele me perguntou, mas não entendi direito, o que? Um cigarrinho, cê quer?

Achei um gesto muito bonito, peguei o cigarro, afinal de contas, eu estava sem, nunca esperei que ele fosse, um dia, me oferecer um cigarro, a vida as vezes até tem um momentos bonitos. E os seres humanos, por incrível que pareça, às vezes até são capazes de um ou outro gesto de gratidão.

E esse enxada aí na tua mão, bicho? Ah, isso aqui é que me pagaram pra carpir ali, ó! Ali onde? Ali na esquina, ó, pouco coisa, vem ver só! E o segui, realmente, era trabalho leve, coisa rápida. Porra, ta de boa, hein! É então, vish Maria, rapidão to sossegado já!

E então, fui embora. A vida às vezes tem momentos bonitos, mas, no geral, é bem feia.

Fumando o cigarro que ele me deu (por sinal, nacional e muito melhor do que o que eu planejava comprar) vi uma criança com cara detestável. A maioria das crianças tem esse ar, essa, barrigudinha, descalça, passou por mim gritando algo como “Ôh Felipe, seu pinguço!” fiquei pensando, por um tempo, quem seria o tal Felipe, pinguço, amigo da criança. Outra criança? Nem seria tão surpreendente, olhei para trás.

Felipe é o meu amigo, até então anônimo.

Com uma enxada na mão

E uma criança o enchendo o saco enquanto ele trabalha.

Parei no meio da rua para ver o que aconteceria. O moleque, de uns sete anos, gritava alucinadamente, Felipe, numa dessa, o ignorava até com certa classe. Então, parou e virou para trás, fechou as mãos firmemente no cabo da enxada, o moleque ficou quieto por um tempo e deu um sorriso amarelo.

Pois bem, mal conheço o Felipe, não faço idéia do que ele pode ser capaz. Talvez hoje eu faça, aquele dia, o pior aconteceu.

VAI TOMAR NO CU! Ele gritou, e voltou a trabalhar.

A cabeça da porra da criança, infelizmente, continuou intacta.

17 de maio de 2013

Cerveja Custa Bem Menos que Uma Porra de um Podólogo

Falou algo sobre meu olhar, blábláblá, sei lá, algo com inocência, malicia, mais inocência que malicia, menos malicia e mais idiotice, mais lágrimas e menos filha da putagem, mais eu tomando no meu cu e menos qualquer bosta. Foda-se. O que eu sei é que uma ou outra pequena lágrima até teimou em aparecer.

E dói, dói o corpo todo, de bobeira, dói como se fosse na alma, incomoda, sufoca, desespera. Aí eu perco meu tempo, sabe deus porque, tentando desabafar, como falam por aí, mas é foda, a partir do momento em que eu decido abrir essa minha maldita boca, tudo desmorona.

Me disseram certa vez que eu tenho uma capacidade incrível para me auto-sabotar (com hífen, sem hífen, não faço a menor idéia), quem entende algo de psicologia, essa coisa toda, deve talvez, um dia, explicar, o que eu sei é que vivo tomando no cu.

E parece mesmo que eu gosto, pulo de ilusão em ilusão, sabendo que vai dar em nada, nunca dá, e o problema é que quão mais errado as coisas vão saindo, menos eu me surpreendo.

Olhei para ela, sem fazer idéia de que tipo de encontro era aquele, e comecei, primeiro a perceber que doía mesmo, pra caralho, depois, o tal lance da auto-sabotagem, abri a boca, desviei o olhar, fiquei passando a mão na testa, ou em qualquer outro lugar, e fiquei cultivando minha dor, esse desespero, essa angustia, essa tristeza que sinto e que, naquele momento, resolvi compartilhar.

Besta que sou.

Bosta que sou

As vezes eu me surpreendo quando percebo que ainda tenho a capacidade de me decepcionar, fui embora, atrás de pessoas loucas e igualmente solitárias, eu, e bebi, até o sol raiar, andei de um lado ao outro da cidade atrás de qualquer lugar que vendesse cerveja, bebi, bebi e me entorpeci com outros dramas, com outras pequenas tragédias.

E ainda por cima a porra da unha encravada. Dói, dói pra caralho, eu falo.

8 de maio de 2013

Ode à Insônia II

vai tomar no cu!
um ótimo começo
de poema
pra quem
não aguenta
nem mais
respirar

não é isso o que dizem?

você
que é tão bom
você
sempre tão certo
você
sempre julgando
do alto
da sua humildade

pra puta
a santa puta
que o pariu!
com suas convicções
com seus discursos
mal decorados
com seus abraços
e seus elogios

de quem você gosta, afinal?
quem você
realmente ama?

você quer mesmo
mudar o mundo
como diz?
acho que não
no fundo
você só quer
inflar seu ego
e seu pau

sabe, muito bem
que vive em uma
eterna
masturbação

enfia no fundo
do seu rabo tatuado
todo o seu
suposto respeito
conquistado a gritos
e ofensas gratuitas
engole
engasga
e
morre
com as tuas
palavras de amor

vai tomar no cu!
e isso não é
nenhuma
licença poética.

(Ode à Insônia)

6 de maio de 2013

No Conforto de Lugar Nenhum

perdi
meu emprego
meu celular
minhas blusas de frio
a paciencia
o jogo
a vontade

perdi o caminho
de volta
perdi o destino

perdi a coragem
de procurar alguma coisa
perdi a sobriedade
a sanidade
até as minhas
maledicencias

na vastidão
do vazio
na escuridão
das epifanias reveladoras
no vácuo
das descobertas
me perdi
e, do outro lado
vagando só
com lágrimas misteriosas
nos olhos
e uma lata
meio quente
de cerveja nas mãos
me encontrei.