23 de abril de 2014

O Último Copo Nunca Fez Diferença



Sempre foi assim, entre estar deitado em estado quase vegetativo na minha cama e sentado no chão em meio a dezenas de pessoas consumindo ferozmente qualquer bebida barata enquanto discutimos os mais variados assuntos com a paixão de quem sente absolutamente tudo aquilo na pele não bastam mais do que alguns minutos. É só o tempo de eu colocar uma camiseta e ir até lá, onde alguns estão começando, outros se conhecendo, e mais outros caídos no canto em transe por sei lá o que. Não é bem isso que importa.
Me sinto o tempo todo de ressaca, pra ser sincero. Acho que é por isso que tomo tanto café. Me esforço ao máximo para, no fim de mais uma dessas noitadas, te acompanhar até em casa, uma bela casa, sempre, no caminho da minha, mas então chego sozinho, onde sofrerei no dia seguinte com minha gloriosa dor de cabeça.
Foda-se, é o que diriam, né? É sempre uma ressaca, a vida é a grande ressaca do porre da nossa existência. Entupamo-nos de vinhos vagabundos e conhaques tóxicos, cervejas adulteradas, baseados cheios de amônia enrolados em papel de pão engordurado. No fim das contas, no dia seguinte, a náusea estará lá de qualquer jeito.
É sempre uma ressaca. Aquela de olhar para a cara sebenta do patrão e ter de se entupir com arrozfeijãobifebatatafrita pro resto da vida. É meu prato favorito, você vai dizer, mas é claro que é, geralmente, é tudo o que sempre teve, gostar não é mais que sua obrigação. Deus ta vendo, filho, desfazer da comida é pecado.
Epocler ou um tiro no céu da boca. Dois litros d’agua, de veneno, de coca-cola. Eu recomendo um tiro e uma dose de gim. Uma carreira de cocaína daquelas que quando chegam na garganta te deixam com vontade de vomitar. Um tiro. Outra dose de gim. Café com conhaque e depois um risole na padaria, sete e meia da manhã, o sol é sempre lindo e a brisa suave.
Abra seu livro, faça todas as anotações e não deixe de responder a chamada.
Procure o seu grande amor. Ou ele ou a foda do dia, da semana, do mês, até um não agüentar mais olhar para a fuça do outro e admitirem que estão indo rápido demais. Rápido demais? É, rápido demais. Morra de amores, pense todo dia no filho da puta antes de pegar no sono mas não se entregue. VOCÊS ESTÃO INDO RÁPIDO DEMAIS. Pra curar a ressaca de um amor que acontece rápido demais nada melhor do que um beijo num desconhecido na frente de vários conhecidos. Uma briga.
É sempre uma ressaca. Tome alguns banhos de meia hora, durma o dia inteiro, se esconda do mundo por um tempo.
A vida é a ressaca do porre da existência. Um Epocler ou um tiro no céu da boca. A ressaca continua. Peça mais uma dose.

***

bom, aos poucos uma coisa ou outra pode voltar a aparecer aqui, o link da página no facebook ta ali do lado, geralmente tem mais material.

Um comentário:

Larissa Bello disse...

Que bom que voltou a escrever por aqui, Henrique! Considero o blog sempre um espaço à parte na internet. Um canto particular que atrai um outro tipo de leitor e público. Seu texto me remeteu a Orwell (1984). Principalmente a parte do gim. Suas descrições são sempre bem imagéticas. Gosto disso. O círculo da existência só se torna vicioso quando insistimos em manter um padrão autoflagelante. Para quebrar esse padrão, é preciso primeiro admiti-lo, mas não necessariamente odiá-lo, e sim apenas compreendê-lo para que consigamos, SEM SER RÁPIDO DEMAIS, revertê-lo.

Bjos!