Sempre foi assim, entre estar deitado em estado quase
vegetativo na minha cama e sentado no chão em meio a dezenas de pessoas
consumindo ferozmente qualquer bebida barata enquanto discutimos os mais
variados assuntos com a paixão de quem sente absolutamente tudo aquilo na pele
não bastam mais do que alguns minutos. É só o tempo de eu colocar uma camiseta
e ir até lá, onde alguns estão começando, outros se conhecendo, e mais outros
caídos no canto em transe por sei lá o que. Não é bem isso que importa.
Me sinto o tempo todo de ressaca, pra ser sincero. Acho que
é por isso que tomo tanto café. Me esforço ao máximo para, no fim de mais uma
dessas noitadas, te acompanhar até em casa, uma bela casa, sempre, no caminho
da minha, mas então chego sozinho, onde sofrerei no dia seguinte com minha
gloriosa dor de cabeça.
Foda-se, é o que diriam, né? É sempre uma ressaca, a vida é
a grande ressaca do porre da nossa existência. Entupamo-nos de vinhos
vagabundos e conhaques tóxicos, cervejas adulteradas, baseados cheios de amônia
enrolados em papel de pão engordurado. No fim das contas, no dia seguinte, a náusea
estará lá de qualquer jeito.
É sempre uma ressaca. Aquela de olhar para a cara sebenta do
patrão e ter de se entupir com arrozfeijãobifebatatafrita pro resto da vida. É meu
prato favorito, você vai dizer, mas é claro que é, geralmente, é tudo o que
sempre teve, gostar não é mais que sua obrigação. Deus ta vendo, filho,
desfazer da comida é pecado.
Epocler ou um tiro no céu da boca. Dois litros d’agua, de
veneno, de coca-cola. Eu recomendo um tiro e uma dose de gim. Uma carreira de
cocaína daquelas que quando chegam na garganta te deixam com vontade de
vomitar. Um tiro. Outra dose de gim. Café com conhaque e depois um risole na
padaria, sete e meia da manhã, o sol é sempre lindo e a brisa suave.
Abra seu livro, faça todas as anotações e não deixe de
responder a chamada.
Procure o seu grande amor. Ou ele ou a foda do dia, da
semana, do mês, até um não agüentar mais olhar para a fuça do outro e admitirem
que estão indo rápido demais. Rápido demais? É, rápido demais. Morra de amores,
pense todo dia no filho da puta antes de pegar no sono mas não se entregue.
VOCÊS ESTÃO INDO RÁPIDO DEMAIS. Pra curar a ressaca de um amor que acontece
rápido demais nada melhor do que um beijo num desconhecido na frente de vários
conhecidos. Uma briga.
É sempre uma ressaca. Tome alguns banhos de meia hora, durma
o dia inteiro, se esconda do mundo por um tempo.
A vida é a ressaca do porre da existência. Um Epocler ou um
tiro no céu da boca. A ressaca continua. Peça mais uma dose.
***
bom, aos poucos uma coisa ou outra pode voltar a aparecer aqui, o link da página no facebook ta ali do lado, geralmente tem mais material.


Um comentário:
Que bom que voltou a escrever por aqui, Henrique! Considero o blog sempre um espaço à parte na internet. Um canto particular que atrai um outro tipo de leitor e público. Seu texto me remeteu a Orwell (1984). Principalmente a parte do gim. Suas descrições são sempre bem imagéticas. Gosto disso. O círculo da existência só se torna vicioso quando insistimos em manter um padrão autoflagelante. Para quebrar esse padrão, é preciso primeiro admiti-lo, mas não necessariamente odiá-lo, e sim apenas compreendê-lo para que consigamos, SEM SER RÁPIDO DEMAIS, revertê-lo.
Bjos!
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