Todo mundo seria muito mais feliz se, ao invés de ficar tentando provar para si mesmo, e para os outros, que é uma boa pessoa, ou que está se tornando, diariamente, um ser humano melhor, assumisse de uma vez o quão filho da puta é.
O ônibus chacoalha, tento me concentrar no meu livro, mas, a minha frente, ela me desconcerta, seu olhar melancólico, perdido, desesperado. O tipo de olhar que parece ter sempre uma lágrima pronta para cair. Com uma mão, ela se agarra a um daqueles ferros posicionados estrategicamente, com a outra, segura um carrinho de bebe. Ela continua com o mesmo corte de cabelo, a mesma cara inocente, o mesmo tamanho, e até suas roupas parecem iguais as daquele tempo. O que mudou nela, de fato, foi o olhar.
Me lembro, faz tempo até, da primeira vez que a vi assim. Eu tinha, no dia anterior, soltado umas palavras duras, não sei se mais para mim, ou para ela. Até onde sei, foi a primeira vez que fiz uma mulher, com exceção da minha mãe, chorar. No dia seguinte, ela passou reto, o olhar baixo, e eu, então, nunca mais a vi.
Ando pelas ruas, ainda é manhã, e o sol aparece depois de vários dias escondido. Compro um maço de cigarros e peço o isqueiro emprestado para alguém, vago pelas ruas do centro, tão acolhedoras, mesmo pela manhã, já conta com os moribundos e as putas, alguns policiais suarentos e descerebrados andando por lá, velhas crianças vendendo balas, e infelizes que se enganam vestindo ternos insuportavelmente quentes e desconfortáveis para fazer media na merda de emprego que lhes rende um salário mínimo e uma cesta básica. Nunca sei se sinto pena, ou se admiro esse monte de pobres diabos, que se arrastam entre a fumaça, a pressa, a loucura dos homens de bem ao redor, devorando sua própria raça em nome de umas férias em algum maldito resort dezenove estrelas, parceladas em setenta e duas vezes sem juros e sem entrada.
Lá esta ela, na minha frente, seu celular toca, ela atende, parece que algo, pela sua expressão, deu terrivelmente errado, algo pelo qual ela esperava (embora, pela criança ao seu lado, pelo jeito, ela já aprendeu a lidar com acontecimentos inesperados), abana a cabeça, está tudo bem, sem problema, tudo bem, esquenta não, obrigada você. Lança um olhar de desespero para o pequeno animalzinho, que responde com um sorriso ingênuo, ela sorri de volta, melancolicamente.
Atravesso o centro da cidade, um turbilhão de lembranças ainda me acomete, o primeiro cigarro do maço acaba, ainda tenho tempo, acendo outro, atravesso algumas ruas, escapo de alguns ambulantes, cumprimento o mendigo de sempre, deus abençoe, amém, olho para as escadas, termino meu cigarro, coço o saco disfarçadamente, visto meu melhor sorriso, e subo.
Como sempre, lá estava eu fugindo, havia, dois dias atrás, ganhado um presente muito singelo, uma pequena corrente dourada, com um simpático pingentinho em formato de cruz, um beijo, mais inocente do que libidinoso, se não me engano, o primeiro te amo que me disseram. Dois dias depois, lá estava ela, passando reto por mim, tinha sido, até então, nosso ultimo encontro.
O ônibus para em um ponto, levanto para descer, ela, a minha frente, também começa uma movimentação, não aguento e a ajudo a descer o carrinho de bebe, depois, olho no fundo daqueles olhos que continuam com uma cor estranha, ensaio um sorriso e uma desculpa descarada, queria cair de joelhos, na verdade, e implorar um perdão qualquer, ela, sensibilizada na medida, me agradece, indiferente, eu era apenas um qualquer, no ônibus, tentando achar um jeito de come-la. Deve ter pensado isso. E toma seu caminho, olhando para baixo.
Termino as escadas, cumprimento todo mundo com um sorriso no rosto, embora burocraticamente, e começo minha jornada de oito horas.
Ao final da primeira hora, já não penso mais nela.


4 comentários:
Cada um com a sua filhadaputagem característica.
Adorei o texto! (:
Caramba, como fico tanto tempo assim sem ler seus textos? Que saudade intensa!
Você continua bom, continua ativo. Que legal isso!!
Bom te "ver" por aqui amigo!
Adoro esse tipo de construção textual, que no cinema seria a montagem paralela: Intercalação de diferentes momentos, que possuem uma certa simultaneidade. Muito bom, Henrique!
Bjos
Como disse Matthew Perry no seriado Go On "ser uma pessoa melhor é um saco."
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