O mundo queima, explode, grita, lá fora. Milhares e milhares de pessoas erguem suas mãos e suas vozes, sua bandeiras, seus ânimos. E eu, enfiado em um colchão, pouco me fodendo para isso, sentindo pena de todos esses espíritos exaltados e esperançosos, torcendo para estar errado.
Muita bebida, pra variar, antes, eu a olhava e, em cada frase que ela soltava, me sentia apaixonar mais e mais. Nunca saberei pelo que, é toda essa maluquice, os erros contados de uma maneira tão natural, a sinceridade imoral, o gosto em escandalizar. Ela falava e chacoalhava e poetizava, eu ria, tentava acompanhar o seu ritmo mas, sinceramente, mal acompanhava o meu próprio.
Esperança. Perspectivas. Sonhos.
Falamos disso também, em algum momento, não me lembro com certeza qual, mas lembro o tom, tom de frustração. Foi o que bastou para mim. Mestre em nutrir paixões repentinas e descartáveis, me vi ali, como tanto acontece, apaixonado.
Alguém me disse que o mundo vai mudar, é a força do povo, que acordou, nunca sei se rio, ou se choro. Que mundo, meu deus? Mudar, pra melhor? As pessoas realmente conseguem se apegar a isso? Será mesmo que elas sabem o que estão fazendo? Eu não sei, não sei o que estou fazendo aqui, não sei o que estou fazendo nem quando dou uma cagada. Quem dirá no meio de milhares de pessoas que lutam por algo que é realmente muito mais que vinte centavos, é... é muito mais que isso.
Paixões repentinas e descartáveis, pelo jeito não sou só eu que tenho as minhas. Um beijo, dois, três e sabe-se lá mais o que, a ebriedade, o tesão explodindo, estávamos sem roupa em meio a piadas, cambaleadas e longos beijos. As ruas lá fora, explodindo, os policiais, as pessoas, a imprensa, todo mundo vibrando por algo, eu também, me entregava a efemeridade, sentia que, ali, minha vida podia mudar, talvez, fosse o começo de algo muito maior, muito mais bonito do que aquilo que tinha vivido até aquele momento.
Caindo de bêbados, viramos de tudo que era jeito, e então, nada aconteceu, simplesmente não gozei, aquele jato, aqueles segundos que nos jogam para o lado e fazem nos sentirmos, como nunca, animais, não chegaram. Não me senti um animal, mas, ao fim de tudo, demasiado humano. No meio de tudo, naquele frenesi todo, me peguei pensando em tudo o que me levou a querer estar com ela, ali, trepando feito dois loucos. Era demais pra mim.
Minha paixão, talvez por causa disso, não passou, e não vai passar, elas nunca passam, o que acontece é que eu as guardo em um canto especial, na gaveta das paixões que ainda não viraram frustração, e enquanto eu não for lá, correr atrás e tomar no meu cu, não sossego.
Espero, de coração, que todo mundo lá fora, trepando casualmente, instantaneamente apaixonados pela esperança de um mundo melhor, apaixonados pela tal democracia, pelo suposto poder que eles tem, realmente, no meio dessa trepada frenética e descomunal, consigam, enfim, gozar. Que tudo termine em um imenso jato de porra. E que esse não seja apenas um amor assim, tão passageiro.
Já eu, fico no meu colchão. Talvez bata uma punheta se demorar muito pra pegar no sono, pensando nas minhas paixões.


Um comentário:
Triste será se após TUDO isso não gozarmos. ;/
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