Chega um momento na vida em que tudo que a gente quer é sumir.
Olha para os filhos e já estão todos criados, cheios de amigos, e namoradas, e noitadas, essas coisas. Aí a gente deita na cama de noite e do lado tem um velho barrigudo, que em nada lembra aquele moço não-tão-bonito mas simpático que um dia, morrendo de vergonha, ofereceu o lugar no ônibus para impressionar e puxar papo.
Por falar nisso, me ofereceram lugar no ônibus dia desses, mas não foi um moço simpático querendo me conquistar, e sim uma vaca branquela com o cabelo atrás da orelha que achou que eu sou algum tipo de velha que precisa da gentileza dos outros.
Sumir, sabe? É disso que tenho vontade, ir, sei lá, pra uma daquelas praias que a gente vê nas revistas, tomar aquelas bebidas no abacaxi rodeada de gente granfina. Não passar a tarde de sexta-feira escolhendo fruta no supermercado, porque você sabe né, esse povo de mercado é tudo filho da puta, eles colocam as verduras baratas, mas na televisão é uma coisa, você chega lá só tem verdura feia. Leva um tempão pra escolher.
E depois de todo esse tempo, onde você se mata pra escolher a porcaria da batata, os filhos não comem em casa e o velho barrigudo reclama que está sem sal. Eu mesma nem sinto fome, como um pouquinho só, aproveito pra dar uma emagrecida também.
Terminando de comer você vai ver alguma coisa na televisão e o velho senta na área pra fumar. Eu falo que faz mal, mas porque todo mundo fala, antigamente não fazia e ninguém falava nada, ele me diz que sabe disso, mas, teimoso que é, não para. Eu também não ligo muito, se ele gosta, fazer o que. Ele é meio turrão, mas sempre foi um bom marido, nunca precisei trabalhar, nem nunca ouvi história dele com mulherada por aí. Acho que amor é isso né? Pelo menos é o que sobra, depois de tanto tempo.
No dia do ônibus eu não aguentei. Acabou a novela e começou aquele programa que sempre fala de bicho da Amazônia, ou do Pantanal, essas coisas. Os filhos ainda não tinham voltado, na verdade, tinham acabado de sair. Fui lá fora e perguntei, de supetão, se ele me achava velha.
No começo ele não entendeu direito, ou se fez de desentendido, né. Mas aí eu contei a história pra ele, e ele riu, disse que é pra eu não me preocupar que é assim mesmo, o tempo passa, mulher.
Respondi alguma coisa baixinho e avisei que já ia deitar.
Quem tem lugar reservado no ônibus é quem tem mais de sessenta anos, eu, graças a Deus, ainda estou um pouco longe disso, mas ainda assim aquela magrela falou pra mim sentar.
E eu ando com uma dor nas pernas e nas costas que vou te contar.
Na hora, a vontade de sumir foi ainda maior, mas eu pensei, que se dane também.
Sentei, agradeci e sentei.
(a fonte ta diferente porque aqui nesse computador não tem a de sempre. De qualquer maneira, Gostei dessa também)


5 comentários:
Num gostei dessa fonte não.
Mas gostei do conto, como sempre. Vi muito da minha vó em várias partes. Ela só não é disposta assim e quem compra as verduras e tal é meu vô.
Enfim, tava com saudade de te ler! :D
Te amo
que texto mais lindo!!!!!
"esse povo de mercado é tudo filho da puta"
euri usahuhsuahsuhausuasuahus
adorei!!
É, ficamos velhos. O tempo rouba nossa beleza e deixa a sabedoria.
Gostei muito do conto *-*
Beijos
Acho que foi paixão o que eu senti quando terminei de ler esse texto. É isso mesmo, estou apaixonada por isso aqui.
Mas a gente vai sumir para onde?Quando falam de sumir me vem a cabeça aqueles lugares escuros (ou então totalmente brancos) que você fica andando para lá e para cá e não chega a lugar nenhum.
Sumir ninguém quer, mas uma nova, uma chance, acho que todo mundo quer.
Amanhã eu faço 23 anos e de alguma forma, que eu não soube como, jogaram 23 adicionais as minhas costas. É, eu também quero ir pra uma dessas praias de grã-fino e tomar alguma coisa chique, mas o engraçado é que eu sei que depois de um tempo eu iria sentir falta dos meus 23 adicionais... eu sou anormal. rs
Ou simplesmente, me acostumei.
Não sei.
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