31 de março de 2010

Presente

O dia não seria dos melhores.

Almoço, louça, falação na cabeça e trabalho da faculdade. Não tinha uma vida horrível, mas de uns dias pra cá, estava viciado.

Algo o corroía, sentia cada vez mais necessidade daquilo que nem sempre podia ter.

Se encontrava perdido madrugada adentro, escrevendo canções que nunca serão ouvidas e tentando de todas as formas que ele conseguia encontrar em seu quarto apertado suprir aquilo que precisava.

Demorava a dormir, as vezes levantava e pegava algo dentro de uma caixa escondida em seu guarda roupa, acalmava um pouco, mas aquele mesmo algo que o corría gritava dentro dele com uma violência e uma autoridade assustadora que não era suficiente.

O desejo voltava ainda mais forte e aterrador, e ele se via novamente perdido nas mesmas canções, lapidando-as, tentando deixa-las dignas.

É, o dia não seria dos melhores.

Não fosse por uma notícia recebida na noite do dia anterior.

Estava sentado, amarrando o cadarço, então olhou paro o lado e viu o sorriso dela.

E ele fez o dia valer a pena.

18 de março de 2010

Identidade

Gente morrendo e você rindo
Todos rimos ao vê-los de longe
Partindo.

Quem é você que mata, rouba e engana
Quem te faz o mesmo
Quem não faz, mas faria
Se pudesse,
Se quisesse
Você não se enganaria

O mundo acabando você acumulando
E pra que?
Se tudo que temos esta
Desmoronando.

E não temos nada
Não somos nada
A humanidade te corrói

E temos não nada
Não somos nada
Se a pureza nos destrói

A bondade já andou por aqui
Ela já olhou nos nossos olhos
E se compadeceu de nós

Quem é você
Quem sou eu, que rimos ao ver
Que o outro sofreu
Se já matamos Deus
Quem é você
E quem sou eu.

1 de março de 2010

Sonhos de Paz

Era domingo, e eles repetiram o ritual de anos. Colocaram a mesa para fora, umas latas de cerveja e um maço de cigarros.

Ainda não eram idosos, mas também não eram mais jovens, completariam vinte anos de casamento em alguns meses, vinte anos assim, serenos.

O macarrão e o frango assado foram colocados sobre a mesa, ele se serviu primeiro a abriu uma lata de cerveja, ela fez o mesmo.

Comeram, beberam e conversaram um pouco, sobre tudo, sobre eles.

Ja haviam terminado de comer, mas continuaram sentados, ela agora bebia coca e fumava um cigarro, ele continuava com sua cerveja.

Durante todo o tempo que estavam juntos, sempre foram os domingos que os uniam, durante a semana ele dava duro na firma, e ela costurava para fora, nunca tiveram filhos, nem parentes muito chegados, sempre tiveram um ao outro e eram felizes com isso.

Então, o cigarro dela acabou, ela se preparou para acender outro mas ele segurou a sua mão, com a delicadeza e a firmeza que só se consegue depois de vinte anos juntos. Chega um pouco, ele disse, ela riu e bebeu o resto da cerveja dele. Tudo bem, chega.

O tempo começou a fechar, um vento gostoso começou a soprar, e eles continuaram lá.

Conversaram mais alguma coisa qualquer e se perderam em lembranças boas. Até que começou a chover e eles foram dormir um pouco, onde enfim, sonharam um com o outro.

13 de fevereiro de 2010

Pra Dar Certo

Se um certo casal não decidisse sair um sábado a noite, e se um outro rapaz não tivesse saído mais cedo de uma festa insuportável…

Se esse mesmo rapaz, não tivesse dito certa vez que não sabia o que responder a uma risada, e se a moça não tivesse continuado a conversa falando de uma professora que eles tinham em comum…

E se, além da professora, eles não tivessem mais tanta coisa em comum, imagine se eles não se dessem tão bem, se eles não passassem horas conversando, se não se sentissem tão a vontade um com outro, para falar o que viesse a cabeça…

Se ela não tivesse mandado aquela mensagem, que ele esperou tão ansiosamente, aquela que o fez dormir pensando nela e ter certeza do que sentia…

E se aquela conversa monossilábica e interessantíssima, que dizia nada a qualquer um, mas tudo para eles não tivesse acontecido…

Hoje eles não estariam tão felizes, não estariam juntos.

Isso tudo poderia não ter acontecido, mas aconteceu, porque era pra acontecer.

Era pra dar certo.

E deu.